ENCANSTAS DO CERRO DE SAN VICENTE
45 minutosO parque municipal conhecido como Laderas del Cerro de San Vicente situa-se no sudoeste do centro histórico de Salamanca, sobre o morro mais ocidental dos três em que a cidade primitiva se assentou. Este enclave alberga a origem de Salamanca, um assentamento pré-histórico da Primeira Idade do Ferro vinculado à cultura da meseta do Soto de Medinilla.
O espaço tem sido objeto de diversas intervenções arqueológicas, bem como de trabalhos de ajardinamento e melhoria da acessibilidade, que permitiram sua transformação em um parque urbano com abundante vegetação autóctone. A inclinação original dos terraços foi suavizada para facilitar o percurso, incorporando-se também zonas de descanso com bancos ao longo do itinerário.
Durante o passeio por este entorno podem ser observados distintos elementos de interesse etnográfico, como uma nora, sistemas de irrigação, terraços de pedra e antigos caminhos empedrados, que contribuem para valorizar o passado histórico e rural do local.
Preço visita livre
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O Teso de San Vicente é o mais ocidental dos três que configuraram a cidade histórica de Salamanca. Sua posição de destaque sobre o rio Tormes lhe conferiu um decisivo valor estratégico que explica seu povoamento precoce. Aqui foi estabelecido o primeiro assentamento estável da cidade durante a Primeira Idade do Ferro. Foi ocupado do século VIII ao IV a.C., quando o crescimento demográfico fez com que a população se deslocasse para o próximo Teso de las Catedrales, no que seria o castro de Salmántica.
Após a fundação deste segundo assentamento, o morro permaneceu desabitado por séculos, até que na Idade Média foi fundado nele o Mosteiro Beneditino de São Vicente. Devido ao seu caráter estratégico, o mosteiro e o morro seriam ocupados pelas tropas napoleônicas e transformados em um forte militar durante a Guerra da Independência, o que levou à sua destruição durante a Batalha de Salamanca em junho de 1812.
Após o fim da Guerra da Independência, os monges beneditinos tentaram reconstruir o que restava do edifício conventual, até que em 1835 abandonam totalmente seus infrutíferos intentos, para o que contribuíram as políticas de desamortização dos governos deste período. Assim, as ruínas do insigne edifício ficaram abandonadas e expostas ao saqueio de sua estrutura, de modo que no último terço do século XIX já não se conservava nenhum vestígio de interesse artístico. A partir desta data, a área começou a ser colonizada pela população que criou, sobre os escombros do mosteiro e reutilizando-os em grande parte, um bairro popular de pequenas construções que perdurou até poucos anos atrás e que apagou qualquer vestígio do urbanismo histórico.
Em 1949, quando na plataforma superior do morro começou a ser construído o Colégio Maior de Nossa Senhora de Guadalupe, foram descobertos os restos do povoado proto-histórico. Desde a década de noventa, vêm sendo realizadas escavações arqueológicas que permitiram enquadrar o sítio na Cultura de Soto Medinilla. A importância dos restos aqui localizados fez com que em 1997 fosse redigido o Plano Diretor do Cerro de San Vicente, no qual foram diferenciadas três áreas principais de atuação: os vestígios arqueológicos da Primeira Idade do Ferro, os vestígios do Mosteiro Beneditino de São Vicente e as encostas voltadas para a Vaguada de la Palma.
As encostas do Cerro de San Vicente faziam parte do Mosteiro de São Vicente e foram cultivadas pelos monges desde tempos ancestrais. Após a desamortização do século XIX e o abandono do espaço pela comunidade monástica, as encostas foram ocupadas por famílias humildes, que mantiveram a tradição hortícola do espaço até bem entrados os anos oitenta do século passado.
Os trabalhos de acondicionamento nas encostas documentaram vestígios arqueológicos que abrangem todas as etapas históricas representadas no sítio, desde a Idade do Ferro até a atualidade. A intervenção realizada no parque permitiu recuperar o perfil histórico do morro, devolvendo protagonismo aos socalcos e aos marcos arqueológicos e etnográficos presentes no percurso.
Em 2022, o Parque Botânico das Encostas do Cerro de São Vicente abriu suas portas ao público. Durante os trabalhos de condicionamento, foram encontrados diversos elementos etnográficos relacionados ao uso agrícola tradicional, que hoje fazem parte do percurso por seus caminhos pedestres.
O parque ocupa 8.741 metros quadrados, onde convivem vestígios arqueológicos e testemunhos etnográficos ligados ao cultivo agrícola. Seu perímetro é delimitado por uma antiga parede de pedra. O espaço contava com um sistema de irrigação composto por canalizações, uma roda d'água e um tanque, que se mantêm e foram integrados ao percurso do parque. Mais de 14.000 exemplares de espécies arbustivas e 70 novas árvores frutíferas foram plantadas, somando-se às já existentes, principalmente amendoeiras e marmeleiros.
O acesso principal é feito a partir da Vaguada de la Palma, onde painéis informativos introduzem o visitante na história do local e o guiam ao longo do percurso. As inclinações dos caminhos foram suavizadas para torná-lo acessível e bancos foram colocados em pontos estratégicos do percurso. Entre os marcos mais destacados encontram-se:
O BAIRRO DOS MILAGRES
Na segunda metade do século XIX, sobre as ruínas das antigas edificações monumentais que existiram nesta zona do centro histórico, surgiu um bairro popular conhecido como Los Milagros. Famílias humildes, vindas principalmente do mundo rural, construíram aqui suas próprias moradias aproveitando as ruínas provocadas pela guerra napoleônica e pelo processo de desamortização do século XIX. Assim nasceu um bairro de casas baixas e humildes, com um marcado aspecto rural que contrastava com o entorno monumental que o rodeava. Era um bairro insalubre, sem nenhum tipo de serviço, por onde corria o riacho dos Milagros que acabou dando nome ao bairro.
RODA D'ÁGUA e TANQUE
Entre as construções tradicionais conservadas na parte baixa da encosta, podem ser vistas uma roda d'água e um tanque. Ambas as estruturas já aparecem refletidas nos planos militares napoleônicos, realizados no início do século XIX, sendo, portanto, interpretadas como elementos originais do sistema de irrigação do mosteiro que continuou a ser utilizado até algumas décadas atrás pelos habitantes do bairro.
Recentemente, foram instaladas no interior da roda d'água a roda e a maquinaria doadas pela família Barbero, fabricadas pela empresa de Salamanca Metalúrgica del Tormes S.A. A maquinaria original, desaparecida há anos, era de madeira; no final do século XIX, seus componentes foram substituídos por peças de aço fundido.
SISTEMA DE IRRIGAÇÃO E PAVIMENTOS
Desde a época conventual, os socalcos desta encosta dispunham de um sistema de canais de irrigação reforçados com muros de pedra e cascalho que distribuíam a água por gravidade. Nas escavações arqueológicas realizadas junto ao muro sul do recinto, foi detectado o que parece ser um pequeno canal de irrigação escavado no terreno natural.
MUROS DOS SOCALCOS
A encosta foi modificada ao longo da história para seu aproveitamento agrícola. Conservam-se trechos de muros de pedra dos antigos socalcos que continham os taludes e permitiam criar plataformas escalonadas para o cultivo. Alguns poderiam remontar à época conventual.
MURO DA CERCA NOVA e MIRANTE DO MOSTEIRO DE SÃO VICENTE
Em 1577, o mosteiro adquiriu ao conselho os terrenos do topo do morro, conhecidos como El Castro. Encarregou o arquiteto Ribero de Rada da construção de uma casa de recreio e de um mirante sobre o Tormes. O mirante aproveitava como parapeito parte do traçado da Cerca Nova que percorria desde a Porta Nova, contornando o morro até a Vaguada de la Palma. Ribero Rada usou como ornamento esferas herrerianas. Hoje, uma dessas esferas se mantém sobre os restos do mirante.
CALÇAMENTO CONVENTUAL
No alto da encosta, foi localizado um pavimento calçado com seixos de quartzito, restos de um caminho que comunicava as adegas do mosteiro com as hortas em socalcos desta encosta. Os caminhos antigos tinham muito mais inclinação do que os passeios atuais.